Forca, fim e inferioridade

Neto Medeiros

No começo era o verbo. Ou o ouro. O ciclo dourado na terra do Eldorado. Vila Rica abarrotada de escravos, traficantes deles, coronéis, comerciantes, bosta de vaca, dinheiro, jacubas, mocotós e confabulações. Casarões germinados dão acesso uns aos outros. As minas subterrâneas são verdadeiras galerias que cruzam os fundos de igrejas e se encontram por debaixo da terra prometida.

Passados trezentos e poucos anos, a menina dos olhos de nosso Estado vive um dilema. Como celebrar a liberdade trancando o símbolo da resistência? Como reverenciar o herói inconfidente com a devida homenagem ao símbolo da libertação?

A inconfidência mineira ganhou os livros escolares e também o senso comum ao transformar Joaquim José da Silva Xavier em herói. Assim como outro herói que pisou nessa terra diferente e especial. Aleijadinho é atribuído a torto e a direito como autor de obras raras para que estas se valorizem no mercado. Sabe-se que o artista, assim como seu pai, tinha ajudantes e outros escultores em seu ateliê.

A revolta burguesa ou não, construiu não só os livros escolares ou o senso comum. Não só as obras memoráveis como o Romanceiro da Inconfidência, de Cecilia Meireles.  Ou as contestáveis, como o filme protagonizado por Humberto Martins. A cidade ainda vive esse passado presente em todo o seu contexto e complexidade. A terra dos extremos convive com esse paradigma desde a chegada do Bandeirante Antônio Dias em 24 de junho de 1698. Como adaptar o centro histórico ao contexto contemporâneo de crescimento das cidades?

Uma dessas dualidades é o 21. A ode a liberdade celebrada feito prisão. As ideias trancadas dentro do espaço que tem em seu centro a imponente escultura.

Thiago Mapa foi eleito no último pleito vereador pelo Partido Progressista (PP) com 631  votos. Ele é presidente do partido em Ouro Preto. Thiago tem a mesma opinião dúbia de todo o contexto do feriado.

“Eu sou a favor do 21 de Abril.   Sabemos que em Ouro Preto começou tudo. As nossas leis, a luta pela liberdade. É uma data muito bacana. As vezes eu sou um pouco contra as restrições ao povo de Ouro Preto na Praça, mas é uma data que tem que ser valorizada. É uma data que tem que ser cada vez mais marcada. Sou contra a maneira que acontece a cerimônia. Muitas pessoas que não sabem nem a história são homenageadas com a Medalha da Inconfidência. Deveria ser mais limitada as pessoas que se destacam na luta pela liberdade, liberdade de imprensa, liberdade em geral.” 

Questionei Mapa a respeito de uma solução possível para a festa.

“Limitar o número de medalhas para crescer a importância. Sempre indicam pessoas de Ouro Preto, mas muitas vezes as indicações são políticas e não pela importância. Sou a favor também que abram a praça para o povo de Ouro Preto. Não justifica ter uma praça fechada se estamos comemorando a liberdade”.

Para este ano, o cerimonial está previsto para começar as onze horas. Serão 160 medalhas.

TIRA

Liberdade ainda que tarde

Poderia divagar sobre a conjuração, os farrapos ou a derrama, mas o foco é outro. Ou a forca. Flávio Andrade é ouro-pretano, tem 59 anos e é servidor Público. Atualmente trabalha na Pró-reitoria de extensão da UFOP (PROEX). Não se elegeu no último pleito, mas foi vereador por três mandatos, vencendo a primeira eleição em 1988. Também foi vice-prefeito no primeiro governo de Angelo Oswaldo. Flávio é do Partido Verde (PV), já foi candidato a deputado estadual e um dos fundadores do PSDB, que assim como os demais, foi dissidente do partidão PMDB. Flávio é ouro-pretano e quando era vereador recebia várias reclamações sobre a Disneylândia, como ele se refere ao feriado praticado na Praça Tiradentes, com toda pompa e tecnologia.

“Não há lugar mais apropriado para se comemorar o 21 de Abril. Os caras se reuniam na Vila Aparecida (bairro). Tudo aconteceu aqui. Me lembro na infância do Juscelino Kubitschek na Praça, das escolas na Praça. De uns anos pra cá, sete ou oito, a coisa cresceu muito. Comecei a sentir isso quando o Aécio Neves era governador. O Aécio é uma figura muito midiática. Muito de show. E o 21 de Abril começou a ser um show. Negócio de aparato, Telão, Orquestra, palanques monstruosos. E isso começou a incomodar”. 

Também questionei Flávio a respeito de uma possível solução. Há um sentimento de inquietude no ouro-pretano, mas a alto estima do povo parece ter um complexo de inferioridade. Vira e mexe ouvimos um “nativo” a pensar alto: Ouro Preto não é pros ouro-pretanos. É só pros outros de fora. Muitos não se dispõem a fazer nada porque acham que a luta será em vão e no fim, acabarão mesmo é com a cabeça exposta em praça pública da mesma forma. Flávio tem uma solução que pode ser viável. Bastante viável.

“Se você fizer um abaixo assinado pela internet tem 300 mil assinaturas. Se você fizer um movimento para ir pra porta do congresso, vão 20 pessoas. As vezes a pessoa está insatisfeita, mas quando muito, ela quer bater no computador dela. Agora ir pra Praça, ou sair com bandeira ou faixa, aí não vai não. Sinto que as mudanças acontecem mais lentas do que queremos. A sociedade é multifacetada. Tem gente que adora esse 21 de Abril. Vamos ver se as pessoas fazem algo. Faixa, carta ao prefeito ou mesmo um 21 de Abril paralelo. Que 21 de Abril queremos ter? Vamos fazer na Praça da Estação por exemplo? Chamar os artistas para fazer exposições e outras atividades artísticas? Vamos fazer alguma coisa que seja nossa. Já que o da Praça Tiradentes é deles. Se não houver nada, sinal de que talvez estejam todos satisfeitos.”

Abaixo, Flávio Andrade fala mais sobre a cerimônia. Ouça. 

 

Insatisfeitos ou não, um fato não muito agradável chamará a atenção de todos e de todas neste feriado. Neste ano o vinte e um de Abril é num domingo.

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