Um olhar diferente: o estrangeiro

Historiador Peter Blasenheim/ Foto: Verônica Soares

Historiador Peter Blasenheim/ Foto: Verônica Soares

Paula Bamberg e Priscila Gomes

Já falamos de intercâmbio no mercado de trabalho, do Ciências sem Fronteira e de gente que largou tudo pela experiência de conhecer o mundo.

Agora, buscamos um olhar de fora do Brasil sobre o intercâmbio. Falamos com Peter Louis Blasenheim, historiador da Colorado College, dos Estados Unidos. Peter esteve no Brasil nos anos 90, onde escreveu sua tese de PhD sobre o estado de Minas Gerais. Foi professor visitante na UNICAMP e, em 2001, desenvolveu um programa de intercâmbio na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) que hoje também inclui os Associated Colleges of the Midwest e a Universidade de Brasilia (Unb).

A seguir, Peter fala das diferenças entre os sistemas de educação dos dois países (Brasil e EUA), conta como criou o programa de intercâmbio e como expandiu a participação de alunos doAssociated Colleges of the Midwest.

Paula e Priscila : Quando você chegou ao Brasil notou diferença entre o olhar sobre o intercâmbio entre o estadunidense e o brasileiro?

Peter Blasenheim: É uma boa pergunta e isso também é complicado. Olha, o sistema de educação é diferente, por que aqui a gente tem uma variedade enorme de tipos de faculdade, então, os fins de uma viagem no estrangeiro são mais desenvolvidos nos EUA. O aluno norte americano precisa decidir: eu vou passar o verão no estrangeiro? Vou passar o semestre? Pretendo ganhar créditos ou é só para o meu desenvolvimento pessoal? Existem mil opções nos EUA.

No Brasil é difícil porque a educação de nível superior é quase completamente controlada no Planalto e as leis são muito mais rígidas, então, parece que o sistema está começando a “pegar fogo” agora. Outra coisa, a situação econômica do Brasil está melhorando. Antigamente era super difícil até para o brasileiro rico viajar, porque o valor do Cruzado Novo estava sempre diminuindo e era difícil para o brasileiro comprar dólar. Hoje em dia, o brasileiro de classe média também pode viajar, o que é uma coisa boa, uma grande vantagem.

PP: Nos EUA, é obrigatório o aluno fazer intercâmbio?

PB: Não, não é obrigatório de jeito nenhum, mas na minha faculdade, Colorado College, tem uma estatística muito interessante. Quando eu cheguei aqui, em 1973, somente 5% dos nossos alunos passaram um semestre no exterior. Hoje em dia, a média é de 65%. Eu estou aqui há 39 anos e a administração está sempre encorajando o aluno a estudar no exterior. Alguns professores ficam mais desconfiados, principalmente os professores de Ciência e os que falam somente uma língua, mas sempre tem uma parte, por exemplo, os professores que dão aula nas línguas estrangeiras, na Filosofia, na História, que são mais abertos à ideia.

PP: Normalmente, quem paga o intercâmbio são os alunos ou existe incentivo do governo?

PB: O sistema é complicado nos EUA. Normalmente, o aluno paga, mas quase todas as faculdades ricas dão jeito do aluno ganhar bolsa de uma forma ou de outra.

PP: As faculdade dos EUA incentivam o intercâmbio, essa troca de experiência?

PB: Absolutamente sim, principalmente nas disciplinas que já citei. As disciplinas que tratam de assuntos no estrangeiro, por exemplo. Eu sou historiador da América da Latina com PhD em história mineira, então, claro, estou sempre incentivando os meus alunos. E eu montei um programa com uma colega brasileira, a professora Beatriz Domingues da Federal de Juiz de Fora, como consequência desse interesse pessoal.

PP: Como surgiu a ideia de desenvolver o programa?

PB: A Bia é casada com um americano, mas é juizforana e eu a encontrei em um jantar, depois de dar uma palestra em 91 ou 92, não me lembro bem o ano. Mas era um jantar para celebrar a minha visita. Então, a gente começou a bater um papo, foi quando ela me falou que o marido dela era norte-americano de Denver, que fica a 80 km de Colorado Springs, onde fica minha faculdade. Então eu disse: Bia, vou te convidar! Por que ela disse que sempre ia visitar os sogros em Denver, então eu disse pra ela ir conhecer Colorado College da próxima vez que fosse aos EUA. Foi aí que começou nossa amizade profissional e depois pessoal. Quando ela esteve aqui, eu achei um jeito, como o nosso sistema é muito flexível, de ela ficar no Colorado College por três meses como professora convidada. Em uma noite nós estávamos batendo papo, a gente nem lembra quem deu a ideia, mas surgiu a ideia de “trocarmos” alunos por um semestre.

PP: E como foi que vocês deram início ao programa? Houve dificuldade por parte de algum dos países?

PB: Eu falei com a vice-reitora da faculdade aqui, que se interessou muito pela ideia e conseguiu uma verba que dava para financiar a ida de quatro ou cinco professores do Colorado College para visitar a faculdade de Juiz de Fora. Em 2001, começamos o programa de forma muito modesta, porque o Colorado College é muito pequeno, tem só 1.800 alunos. Aqui, a ideia é que as universidades boas não precisam ser grandes, diferente do Brasil, onde as melhores faculdades são enormes, como a USP, a UNICAMP, onde fui professor visitante. Nós ganhamos o apoio da UFJF, mas foi complicado com toda a burocracia, principalmente do lado brasileiro. Para conseguir a verba de Brasília e de Washington, foi preciso também um tema, que foi estudos ambientais, mas mesmo quem tem um interesse superficial no assunto pode conseguir uma bolsa.

PP: E o programa se desenvolveu da forma que vocês esperavam?

PB: O programa desenvolveu muito desde que começou. O Colorado College faz parte do grupo de 14 faculdades privilegiadas da região do meio oeste dos EUA e tem um escritório enorme em Chicago, que chama Associated Colleges of the MidWest, que é um consórcio que administra programas no mundo inteiro.

PP: E quando o programa começou a fazer parte do Associeated Colleges of the MidWest?

PB: Há quatro anos tocou meu telefone e era um homem chamado Christopher Welna que havia acabado de entrar no cargo de presidente do Associated Colleges of the MidWest, que, até então, não tinha ligação nenhuma com o nosso programa. Mas então ele disse que estava interessado no programa de intercâmbio para Juiz de Fora, pois tinha participado do intercâmbio do Rotary em JF aos 16 anos. Ele disse que tinha ligações com o Ministério da Educação, em Brasília, e com a Secretária de Educação em Washington, e que gostaria de expandir o programa para as 14 universidades do Associeated Colleges of the MidWest.

PP: Hoje a bolsa quem dá é a faculdade ou o Governo?

PB: A verba vem do Governo, mas quem escolhe quem ganha a bolsa é a faculdade.

PP: E nos EUA é diferencial ter o intercâmbio no currículo?

PB: É sutil, mas no currículo é sempre uma vantagem. Acho que para o brasileiro é mais. Pra vocês, falar inglês tem um grande diferencial. Mas aqui é uma vantagem muito forte, por que hoje é preciso falar o espanhol e o intercâmbio ajuda.

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