Forc(Ç)a, Ás de espadas e rachão

Neto Medeiros

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Não se sabe ao certo quando começou a repressão na Praça. Algumas dezenas de histórias permeiam o registro coletivo sobre o feriado. O aparato militar disponível em Ouro Preto na época do vinte e um remete mesmo aos anos de chumbo. Lembra a época mais esquecível da história recente do Brasil. E tudo leva a crer que o início do ferrolho bélico tenha se iniciado junto com os anos mais perversos da ditadura. Foi nessa época que a coisa começou a ficar brava e cada vez mais trancada…

Na parte anterior da reportagem, há uma citação sobre o grupo de teatro Living Theatre. Na verdade, o link leva você até o curta filmado em Ouro Preto. Liberdade ainda que à tardinha, tem Danton Mello como protagonista e tem como mote a passagem do grupo pela cidade em virtude de apresentações no Festival de Inverno. A trupe acompanhava o grupo Oficina, de Zé Celso Martinez. Talvez seja irônico o fato de o mentor do teatro do Oprimido ter presenciado com seus convidados o início da truculência contemporânea da cidade. Os atores foram presos na casa onde moravam, o que provocou a reação de artistas renomados como Jonh Lennon e Bob Dylan. Passaram alguns dias encarcerados na capital mineira, depois soltos e deportados. O DOPS fazia e acontecia…

PRAÇA ANACRÔNICA

“Uma vez isso aqui encheu. Como comerciante achava até bom. Mas como cidadão eu acho aquilo uma pouca vergonha. Me lembra o Hitler. Lá em cima, rodeado por seus iguais”. Quem diz isso é Glácio Figueiredo (sem o U mesmo), proprietário do bar do Glácio. O cardápio de iguarias sortidas e diárias é uma das atrações do lugar. A outra é  Ronaldo, atendente simpático e bom de papo. As pessoas criam o clima do lugar que assim como Ouro Preto, representa todas as diversidades típicas da mistura ouro-pretana. Na entrada da ponte que dá acesso ao bairro Antônio Dias, bem ao “pé do morro do Gambá”, (Como é conhecida a Rua Pandiá Calógeras, onde um dia moraram os intergrantes do Living Theatre) o bar do Glácio um dia foi tocado por Osmar Figueiredo. “Meu pai é que vai te contar melhor as histórias”.

Seu Osmar começou com o negócio há muitos anos. Na parte de cima do buteco, funcionava um “pif paf”. O baralho rolava solto quando numa vez, num certo 21 de abril, à tardinha, a polícia “estourou” o carteado. O presidente era João Batista Figueiredo. No meio da jogatina, um dos policiais mandou que as pessoas se levantassem. “Quando Japonês levantou, tinha um monte de carta na cadeira dele. Nem assim ele conseguia ganhar (risos)”.

Manoel Lobato é farmacêutico por formação, mas escreve como poucos. Cronista e poeta, foi agraciado com a Medalha da Inconfidência. A honraria lhe inspirou a escrever sobre sua passagem pela ex-Vila Rica:

Quando fui chamado para a formalidade da entrega da comenda, nem sequer ouvi meu nome. Minha mulher é quem estava mais atenta e me cutucou o braço. As vaias tentaram abafar a voz que mencionava os nomes”  Confira aqui a íntegra da coluna

A “Tragédia de Mar de Espanha” aconteceu no dia 5 de abril de 1996. Ademar Pessoa Cardoso, médico, dirigia uma Blazer. Ismael Keller Loth, empresário, conduzia um Tempra. Ambos disputavam um “racha” pela MG-126, quando, na altura do km 58, o médico bateu seu carro em um Fusca que seguia no sentido contrário, causando a morte de Adriana, de 31 anos e seu marido, Júlio César Viana, de 32. As filhas do casal, Victoria, de 3 anos, e Theodora, de 7 meses, também morreram, além da tia-avó de Adriana, a senhora Belinha, de 93 anos. O STF condenou Ademar a 12 anos e nove meses em regime fechado.

O que esta história tem a ver com essa reportagem?

Assim como Manoel Lobato, Ademar Pessoa seria também agraciado com a medalha da Inconfidência em 2010. Indicado pelo senador Eduardo Azeredo e posteriormente tendo seu nome aprovado por um conselho formado por 16 membros, Cardoso teria também a homenagem não fosse à ampla divulgação do acidente. O governo teve de revogar o “mimo” oficial às pressas, pela primeira vez em 58 anos de cerimônia.

“Não é pra nós ouro-pretanos. Se parar pra pensar, não resolve nada. Um teatrinho maiado, discurso, discurso, discurso e eles ficam doidos pro tempo passar logo e eles irem embora”. Luciano Barbosa é mecânico e mora no bairro Padre Faria a 37 anos.  É uma das vozes que se levantam quando o assunto é o feriado de 21 de Abril.

No próximo e último capítulo de nossa reportagem, saberemos a opinião de um ex-vereador, e também de um atual, sobre “o espetáculo do 21”. Até lá.

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