O diário de um mochileiro: intercâmbio e valorização profissional

Sarah Gonçalves

Fellipe Faria

Times Square – Nova Iorque                     

“Posso dizer sem sombra de dúvida que hoje me conheço muito mais, tenho uma noção maior das minhas prioridades e consigo separar o que é fundamental, importante, útil e apenas supérfluo”.

Cento e cinquenta dias, quatro continentes, dez países, apenas uma mochila e uma grande viagem. Essa é a história de Fellipe Faria, um jornalista de 27 anos que abriu mão da rotina diária de um bom trabalho para poder ver, experimentar e aprender mais da aldeia global. Leia, a seguir, a entrevista que ele concedeu ao Blog Antes do Fim.

Sarah Gonçalves: Como surgiu a ideia de fazer o mochilão?

Fellipe Faria: Eu andava num momento profissional meio estranho, com um ótimo salário e ao mesmo tempo desiludido com as atribuições do trabalho. Como minha vida pessoal também estava meio estagnada, vi que eu estava empurrando a rotina com a barriga e que não tinha a menor ideia de qual rumo seguir na vida. Comecei a planejar um mochilão de um mês para as férias, mas o plano foi tomando proporções maiores e acabei descobrindo a tal passagem de volta ao mundo, que me deu acesso a uma experiência que muitos acreditam ser para poucos.

Felippe Faria

Itinerário da viagem

SG: Quanto tempo durou sua viagem?

FF: 150 dias.

Fellipe Faria

Domo da Rocha – Israel

SG: Você viajou sozinho?             

 FF: Sim. Minha única companhia era minha mochila.

SG: Muitas pessoas saem para estrada com um ideal de busca, de encontrar-se, de conhecer novas realidades. Qual foi sua principal motivação?

FF: Eu não saí com uma motivação específica, no entanto sabia que essa viagem me traria muito conhecimento – especialmente sobre mim mesmo. Ao longo de tantos dias em que só tinha eu mesmo como companhia, sem a facilidade de um celular ou de Internet à disposição, a gente acaba pensando mais na vida, traçando metas e chegando a conclusões que de outra forma demorariam mais a acontecer. Posso dizer sem sombra de dúvida que hoje me conheço muito mais, tenho uma noção maior das minhas prioridades e consigo separar o que é fundamental, importante, útil e apenas supérfluo.

SG: Mochileiros geralmente possuem grande identificação com obras da literatura, músicas e filmes que tratam de aventuras na estrada. Você tem algum que serviu como inspiração?

FF:  Vários. Os livros sobre viagens do Zeca Camargo são bem legais. O livro e o filme Na natureza selvagem também é um clássico dos mochileiros. Inclusive é uma sugestão de viagem que dou a todos os amigos e visitantes do blog: antes de escolher um destino, assista um filme ou leia um livro que se passe naquele país. Algo muito divertido é visitar os pontos que te fazem lembrar de uma obra de que você gosta. Tem gente que faz questão de conhecer a escadaria do prédio onde Carrie Bradshaw (Sex and The City) morava em NYC ou de visitar as igrejas citadas nos livros do Dan Brown.

Conheça o blog “O Mochilão”, que Fellipe manteve durante a viagem.

SG: De todos os lugares que visitou poderia apontar o que mais te marcou ou que superou suas expectativas?

FF: Tailândia e Itália. A Tailândia porque tem várias coisas pra fazer, a comida é maravilhosa, as praias são embasbacantes, as festas são alucinantes e é tudo muito barato. E a Itália porque me identifico muito com o jeito do povo de lá. As cidades são bonitas, parecem transpirar história, e a massa italiana realmente me surpreendeu – afinal, quando a expectativa é alta, dificilmente é atendida.

Fellipe Faria

Praia de Maya Bay – Tailândia

SG: Sobre as pessoas que você conheceu em sua viagem, quais as suas impressões, o que você aprendeu com elas?

FF: As pessoas que eu conheci ao longo desses cinco meses foram as que mais me ensinaram. Você pode até aprender alguma coisa, mas dificilmente você vai viver uma transformação interna ao ver um monumento ou passear naqueles ônibus turísticos. A forma como as pessoas amadurecem é muito diferente dependendo do lugar onde elas cresceram. Morei em Madri com um chinês que sabia tirar raiz quadrada de milhar na mão, mas foi enganado por um golpista na rua e perdeu 2 mil euros – poucos brasileiros seriam vítimas dessa malandragem. Lembro como se fosse hoje do dia em que a galera da pensão em Petra foi passar o dia e a noite no deserto e conheci Maggie, uma francesa de 40 e poucos anos que já tinha rodado o mundo todo. A mulher era cheia de histórias, contou casos hilários do Carnaval que passou em Salvador e não tirou uma única foto durante todo o dia em que ficamos no deserto! Depois de conhecer tantos lugares e pessoas incríveis, percebi que muito brasileiro viaja para encher o álbum do Facebook.

Fellipe Faria

Crianças cambojanas

SG: Durante a viagem há momentos desagradáveis. Quais foram seus piores momentos? E os melhores?

FF: O Zeca Camargo faz um comentário bem legal em um de seus livros. Ele diz que “Comédia = Tragédia + Tempo”. E isso é uma grande verdade. Não corri nenhum risco de vida, mas hoje morro de rir lembrando do frio absurdo que fazia em Istambul e eu só com um casaco térmico fininho, da festa na praia da Tailândia em que acordei alcoolizado sem minhas havaianas e com a câmera toda molhada no meio das pedras, da inexistência de um ônibus para me levar até a fronteira de Israel com a Jordânia, o que me forçou a pegar quatro caronas até lá sem falar duas palavras em hebraico – só sabia uma: “Shalom”.

SG: Muitos mochileiros dizem que a sensação de liberdade que essas andanças pelo mundo proporcionam, acabam mudando o ponto de vista, o objetivo de vida das pessoas. Você sentiu essa mudança?

FF: Sim! Hoje vivo a vida de uma forma muito mais despreocupada, sabendo que se tudo der errado aqui na terrinha ainda temos algumas centenas de países pra conhecer.

SG: Como ficou sua vida após o retorno para casa?

FF: Passei dois meses sem celular quando voltei, tentando encontrar uma oportunidade de trabalho que realmente me fizesse feliz. Por incrível que pareça, essa experiência contou muitos pontos no processo de seleção de trainees de um grande grupo de comunicação do Sul do país. Fui aprovado e hoje sou trainee do Grupo RBS. Estou feliz da vida, aprendendo muito a cada dia.

SG: Você pretende fazer outra viagem?

FF: Já estou com passagens compradas para o Chile e para o Peru neste ano. Ainda sobra vontade de fazer uma nova volta ao mundo, desta vez no rumo contrário, pois perdi um dia depois de cruzar a Linha Internacional de Data e preciso recuperá-lo!

Confira o vídeo apresentado por Fellipe no processo seletivo do Grupo RBS:

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