Liberdade Presa, Reflexão Musical

Neto Medeiros

Ouro Preto abriga gente de todo o mundo. Além de seus paradoxos, que envolvem o novo e o velho, e de todo o seu cenário único, a cidade se relaciona com seus visitantes quase que diários, também por suas histórias peculiares. De Living Theatre a Aleijadinho, Ouro Preto crava sua aura no subconsciente coletivo dos brasileiros, sobretudo dos mineiros, como a emblemática terra do ciclo do ouro. Ouro que lembra a derrama, o quinto, as minas, os escravos e, finalmente, os Inconfidentes.

Passados alguns anos, voltamos ao coração do esplendor barroco. Cravada em seu centro histórico, e lardeada por casarões, joalherias, restaurantes, guias, carros, turistas e moradores, onde ociosos sentam ao pé da estátua, a Praça Tiradentes é, digamos, a sala de visita da cidade.

Algumas figuras beberam e bebem na fonte viva ouro-pretana de inspiração. João Bosco conheceu Vinícius de Moraes nas montanhas boêmias do lugar. Guinard, Jorge dos Anjos e Tonico dos Telhados, só pra citar alguns, são artistas que têm em comum, na essência de sua criação, o DNA ouro-pretano.

Reflexão na música local

O cenário musical da ex-Vila Rica é igualmente especial. Dinâmico e diferente feito a própria cidade, abriga artistas da noite, bandas de rock, axé, pagode, duplas sertanejas, funkeiros e etc. A banda Cachorros Mortos é uma das primeiras do cenário Punk de Ouro Preto. Iniciada no inicio da década de 90, a banda encontra-se atualmente em modo “stand by”, mas permanece na memória da maioria dos roqueiros da cidade.

O músico Edson Zacca desembarcou de Uberaba já faz um tempo. Sua proximidade com a região se dá ao fato de suas raízes familiares estarem na vizinha Mariana. Zacca entrou para os Cachorros Mortos para tocar baixo, embora seja virtuoso mesmo com a guitarra.

Talvez Zacca tenha cumprido uma missão única, ao criar a música Maldito 21 de Abril e incluí-la no repertório da banda. Atualmente em vários projetos musicais, Zacca nos conta agora como surgiu a ideia de fazer o protesto em forma de canção:

Para saber mais sobre as origens da festa do 21 de abril, confira a primeira parte da reportagem.

Neto Medeiros: Como você entrou pros Cachorros mortos? Fale um pouco de sua atuação no cenário musical ouro-pretano.

Edson Zacca: Entrei no ano de 2000 no lugar do baixista Vinícius. Eles só tocavam covers e se chamavam Dead Dogs. Com a minha entrada, pude levar algumas músicas próprias e traduzimos o nome da banda. Toquei com a banda uns oito anos. A partir daí, comecei a tocar e compor com outros grupos e artistas de Ouro Preto e região. Passei a trabalhar em estúdio gravando a música daqui e também organizei, junto a outros dois companheiros da banda Seu Juvenal, o festival Tirando Mofo 1 e 2. Agora estou me concentrando ao máximo minha atuação nos estúdios em que trabalho em Mariana.

NT: Como surgiu à ideia de fazer a música maldito 21 de Abril? Conte um pouco da sua relação com o feriado, e se algo em especial o motivou a fazer a canção.

EZ: Na época, eu morava no bairro Antônio Dias e estava cansado de ver aquela corja de políticos corruptos sendo homenageados numa Praça Tiradentes nada democrática. Então teve uma treta numa mercearia do bairro São Cristóvão, em Ouro Preto, onde a polícia deu uma geral, às vésperas do feriado, e bateu até em mãe de família… Geralmente, antes do evento, eles fazem uma “limpeza”. Para mim, foi a gota d’água, e tentei passar em música o sentimento que sentia vindo das ruas de Ouro Preto, convivendo com a população da cidade. O rock é o estilo ideal pra falar destas coisas.

NM: Como você acha que deveria ser o feriado de Tiradentes na praça de mesmo nome?

EZ: A forma como a gente imagina este dia é utopia pura né, cara. Imagino a praça lotada das famílias de Ouro Preto, com pouquíssimas autoridades (ou nenhuma, de preferência), com atividades culturais e educacionais que realmente comemorassem a liberdade. Um evento que tivesse sim a mesma estrutura mas que tivesse o povo como homenageado. Porque como diz a música, “sitiar a cidade pra comemorar a liberdade” é muito paradoxal e ditatorial.

NM: O que você acha da entrega da Medalha da Inconfidência?

EZ: Uma tradição que, como todos os outros eventos de entrega de prêmios para políticos, é extremamente hipócrita e sensacionalista. É claro que tem gente boa ali no meio também, mas não é suficiente para me fazer acreditar que a grana toda gasta para se fazer acontecer esta entrega não seja dinheiro jogado fora.

NM: Você manifestou seu protesto através da música. Como acha que a sociedade pode se mobilizar para mudar o atual formato do feriado?

EZ: Sou nascido em outra região de Minas e isto não me deixa à vontade pra te responder como a sociedade ouro-pretana tem que se mobilizar pra mudar.  Mesmo tendo meu pai e grande parte de minha família nascida na cidade vizinha de Mariana, mais especificamente, no distrito de Furquim, não tenho autoridade suficiente para sugerir algo ao povo de Ouro Preto. Apenas acredito que, se realmente este dia é tão incômodo pra quem todo dia pisa e vive em Ouro Preto, seria no mínimo sensata uma ação efetiva dos representantes políticos do povo, os senhores vereadores, perante o governo do Estado e sua máquina de opressão. Acredito que Ouro Preto precisa colocar na mesa, em pratos limpos, o dia 21 de abril. Discutir este dia é discutir até onde o povo da cidade tem autonomia sobre a sua própria cidade. Será que a cidade Ouro Preto é do povo de Ouro Preto? Às vezes me parece que não.

RAIO-X:

ZACCANome: Edson Zacca

Idade: 38 anos

Naturalidade: Uberaba

Profissão: Técnico de som e músico

Comida: Carne de boi

Filme: Sargento Getúlio. Dirigido por Hermano Penna e baseado no romance de mesmo nome de João Ubaldo Ribeiro. Foi uma pedrada na minha cabeça!!

Estilo musical, influências, artista(banda)preferida: O Blues é um estilo musical que tenho escutado muito. Toda arte feita com suor e sangue independente do estilo me influencia. A banda de blues Canned Heat é a que mais tenho escutado atualmente.

Time: Atlético Mineiro, o Galão Doido da massa!!!

Livro: Sertões – Euclides da Cunha.

Lugar Inesquecível: Recife

Bandas em que toca ou já tocou: Vixe .. aí não vai dar pra enumerar aqui. Atualmente toco na banda Osquindô, Galanga, Seu Juvenal e na banda de Xisto Siman.

Clique aqui e conheça mais do trabalho do músico: www.myspace.com/zaccasons.

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Um Comentário

  1. Pingback: Ouro Preto sitiada: o 21 de abril dos outros | Antes do fim

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