Uma história em que vida e artesanato se misturam

Joyce Afonso e Lívia Almeida

Maria do Carmo Silva, um nome comum de uma mulher simples, mas com uma história de vida diferenciada. Para muitos, viver de artesanato pode soar pura utopia, mas Maria sabe muito bem o que é isso. Aos 47 anos, moradora do distrito de Cachoeira do Brumado, nossa personagem vive, desde os nove anos, do artesanato, mais especificamente da produção do tapete de sisal, uma tradição local com mais de 100 anos.

Maria é uma mulher sorridente e muito simpática, mora em uma casa acolhedora e com um fogão a lenha convidativo. De origem pobre, desde cedo teve de ajudar no próprio sustento e também dos irmãos. Quando tinha sete anos, sua mãe a presenteou com um pequeno tear, para que ela aprendesse a tecer tapetes. Com nove anos, já ajudava a mãe na produção. Nessa época, o tapete de sisal não era, ainda, de sisal.

A primeira pessoa a produzir os tapetes foi um homem do povoado de Cafundão, na região de Mariana, que criou a arte ao observar uma aranha tecer. Esse homem tentou reproduzir a elaborada arte da aranha com a folha de bananeira e a mágica deu certo. Tão certo que ele saiu espalhando o grande feito e a técnica para muitas pessoas desse mesmo povoado e, uma dessas pessoas foi a avó de Maria.

Quando nossa personagem começou a produzir os tapetes, eles já eram feitos de folha de piteira. Os produtores tinham que madrugar para colher a folha e, muitas vezes se expunham a alguns riscos, até que descobriram a fibra de sisal, cujo cultivo é feito na Bahia.

Maria do Carmo se casou antes dos 17 anos, em uma época em que nada foi fácil. A troco de comida, ela produziu muitos tapetes, mas não reclama. Com um sorriso estampado no rosto, julga que tudo foi positivo, afinal, ela conseguiu colocar comida na mesa. Já mãe dos três filhos, Maria se separou do marido e precisou tomar as rédeas da família sozinha, quer dizer, com a arte do tapete.

Hoje, a batalhadora Maria se orgulha e, até se emociona ao olhar e falar da casa que ela construiu com seu trabalho de artesã. Quanto aos filhos, ela diz: “Passei uma vida muito difícil para dar o estudo aos meus filhos, mas eu consegui, por causa do tapete”.

Quando questionada sobre o que significava o tapete em sua vida, Maria, com seu jeito tão firme de mulher decidida, nos surpreendeu e desmoronou ao dizer com a voz embargada: “A arte do tapete significa tudo na minha vida, significa tudo de bom que eu tive”.

Para Maria, infelizmente, essa tradição está condenada. Hoje, os mais jovens não se interessam mais pelos tapetes, procuram empregos formais, o que ela acredita ser uma decisão acertada, já que os artesãos não possuem nenhuma garantia. Caso um artesão adoeça, ele não tem direito a benefício algum pelo INSS. Contudo, isso não a desanima em nada: “Vou envelhecer e vão cair todos os dentes aqui no tapete, mas é uma coisa que eu nunca vou abandonar”.

Abaixo segue um trecho da entrevista que fizemos com dona Maria

Conheça também a tradição das bandas civis nos distritos de Mariana.

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