Fim da trilha

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Giuseppe Rindoni

Suba o bairro São Gonçalo. Pela rua ou pela travessa, de preferência no coletivo, pra não desistir da escalada. Você chegará ao final do asfalto, mas ainda não acabam as casas. Pelo contrário, começa outra rua. Rua? De terra batida escorada por muros de arrimo feitos com pneus.

Mais casas se escoram nos barrancos, outras já escorregaram com a chuva e algumas vão subindo, sem saber até quando ficam em pé. “Minha casa é essa do lado”. – De frente parece um barraco, do fundo juro que é um prédio, tem no mínimo três andares, agarrados à terra não como a casa de baixo. “E aquela casa é do meu filho, desabou faz oito anos”. – E o pesar na voz de Maria sai quase puxando lágrimas.

Proibido estacionar. Mas passa carro? Vi que sim, com areia, tijolos, cimento e pessoas pra desbravar. “Antes era trilha, a gente abriu essa rua no braço”. – Para pra contar um dos rapazes que rebocava uma casa, a sua segunda. A outra desabou na última chuva num topo mais a frente. Mas antes de chegar aos destroços daquele sonho, é impossível não ver uma cratera que se forma ao lado da rua pela erosão da chuva. Se não fosse a contenção de pneus sob um trecho cimentado pelos próprios moradores, hoje nem seria possível atravessar.

Do outro lado da rua onde desabou a casa daquele rapaz, outros corajosos também construíram a sua. De um cômodo entre duas crateras, saem dois rapazes com picaretas e descem o morro. Nesse lugar difícil até de ficar em pé, vão escavando. Covas? Não! “Aqui a gente enche de concreto para o alicerce”.

No fim da rua outra casa já está na metade. Na entrada, o jovem que carrega seu carrinho de brita, grita o dono, que tranquilamente apresenta os cômodos inacabados. No chão, um colchão empoeirado improvisa o que na cabeça já está pronto. Um buraco na parede vai ser janela, mas já emoldura uma grande vista. Mariana, Pico da Cartuxa, Serrinha, Pico do Itacolomi. No meio do quadro, o Cabanas. “Outro dia derrubaram uns barracos ali, até conversei, tentei impedir, mas não teve jeito”. – Ele não sabia quem era mais máquina, o trator ou o operador.

Daquela casa pra frente só se vê mourões e arames, cercando o que nem deveriam. Será? O certo ali, é que algum dia também vão começar a construir. E é de onde continuo a escrever.

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