Ouro Preto sitiada: o 21 de abril dos outros

Neto Medeiros

Imagine um lugar tomado por cercas. Cancelas pra todos os lados. Policiais, cães farejadores, fuzis, exercito, helicóptero. Vários agentes de segurança do Estado, empunhando metralhadoras e protegidos com coletes. Imaginou? Se você viajar demais, talvez este cenário tipicamente bélico, ou mesmo de algum lugar sob quarentena, acesse o seu arquivo imaginário popular cinematográfico, ou seja, aquele cenário clichê de filmes de guerra, em especial sobre as películas que tratam do embate no Vietnã, vira e mexe “requentado” pelo cinemão americano.

OURO PRETO SITIADA

Este cenário é o que toma conta da Praça Tiradentes em um dia específico. Sistematicamente, há alguns anos, em todo dia 21 de abril, a Praça onde foi exposta a cabeça do “Inconfidente-mor” é tomada por cabos, câmeras e uma infinidade de leões de chácara.

Quando cheguei a Ouro Preto, há seis anos, me vi perplexo por todas as idiossincrasias da cidade. Antes, ao visitar a ex-Vila Rica, fiquei encantado pela suntuosidade do lugar que abriga a escultura de Tiradentes, talvez a estátua mais imponente e bela de toda a Minas Gerais. Além do show para os olhos e alma, a paisagem de Ouro Preto é especialmente decorada pela presença imponente daquele que vira as costas para a antiga sede do governo.

Alguns meses depois, pude ver de perto o dia da ode ao mártir. Quer dizer, mais ou menos perto. No dia 21 de Abril aterrissa em Ouro Preto uma pequena multidão de técnicos, militares, políticos e visitantes pontuais. Há alguns anos, o espetáculo feito para as câmeras da Rede Minas, TV estatal mineira que transmite o evento, é montado. O aparato técnico que desembarca na cidade centenária alguns dias antes do feriado causa alteração na rotina da cidade e a consequente adequação dos moradores. Quando se interdita a praça Tiradentes, que dá acesso a todas as regiões da cidade, o trânsito ouro-pretano, já confuso, fica ainda mais tenso.

Além de todo o trambolho técnico – gruas, palcos, luz e sons – que desembarca na cidade, militares e políticos de todos os lugares também são presenças confirmadas. A Medalha da Inconfidência é atrativo para algumas figuras públicas do Brasil. Atores, artistas, polítcos, escritores e personalidades brasileiras são agraciados(adas) em todo dia 21 de Abril, dia em que a capital mineira é transferida, simbolicamente, para Ouro Preto.

No passado, uma outra Praça

A Praça Tiradentes tinha até manifestações democráticas. Os “nativos” também relatam que havia shows e que o 21 nem sempre foi assim. Manifestantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Movimento Sem-terra e outras organizações políticas eram presença constante na Praça, em cada 21. O arrolho proporcionado pelo Estado foi afastando a força as manifestações, assim como a presença dos populares. Para participar da festa, os anfitriões (no caso, a população local) têm que passar por um cadastro prévio, além de uma revista minuciosa em seus pertences.

Em época de eleição, é comum ver centenas de pessoas empunhando bandeiras partidárias. Como verdadeiros figurantes, cabos eleitorais se amontoam em frente ao Museu da Inconfidência, disputando cada espaço vago, tremulando suas bandeiras amarelas e azuis, vermelhas, verdes e cheias de letras. Feito empolgação de torcida organizada. Há manifestantes, mas devidamente afastados do campo de visão das câmeras e da festa.

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Espaço público sitiado

É no mínimo curioso o fato de um lugar público, ser transformado em capital mineira e, ao mesmo tempo, cercear o direito do cidadão de ir e vir. Nos moldes atuais, o feriado de 21 de abril, além de ferir a constituição, é alvo de reclamação por parte de quase todos os cidadãos, especialmente aqueles que moram ou trabalham nos arredores da Praça, que apenas observam a invasão.

Indignada, uma banda ouro-pretana resolveu musicalizar o protesto contra o estado de sítio que a cidade vive na referida data. Clique aqui e saiba mais sobre esse protesto musical.

Trovas, toras e travessas… Ideias descompassadas e tremidas.

Ira. Ganância e poder…

Ratos que querem sempre a maior parte do queijo…

Almas que perambulam sem nenhuma missão…

Dúvidas entre o ruim e o pior…

Embora a dor seja a mesma.

Nunca, Jamais, em hipótese alguma,

Ter a esperança perdida. Como?

Esperar mais uma vez a esperança e a fé. Resistir sempre.

Se entregar jamais. E morrer como herói…

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Um Comentário

  1. Pingback: Liberdade Presa, Reflexão Musical | Antes do fim

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