A rede que “protege”

Mariana Borba e Nathália Viegas

Grade na janela. Tranca na porta. Alarme ligado. Tudo seguro. Tudo mesmo? Sobe até o escritório. Computador em espera. Digita. Facebook. A grade na janela impede que alguém entre na sua casa. E a janela do “inbox”? Aquela que sobe quando um “amigo” fala com você na rede social? Se as informações da sua vida passam por essa nova janela, qual a segurança?

A janela do inbox sobe. Uma foto amigável, uma conversa que a princípio era inocente, transforma-se no perfil da sua vida. Aquele novo “amigo” se torna íntimo, confidente e aos poucos consegue informações preciosas de seu cotidiano.

Do que adianta adotar todos os meios possíveis de segurança, se a preservação pessoal não é prioridade? O perigo de se expor exageradamente está no fornecimento das informações que facilitam a quebra da sua proteção. É uma espécie de Big Brother às cegas: você não conhece pessoalmente o outro, porém, identifica-se e troca informações com quem se assemelha. Muitas vezes é carência, necessidade de não se sentir só. Outras vezes é necessidade de ser curtido, compartilhado ou retuítado.

Reprodução: Anassis Moura Ramos

Reprodução: Anassis Moura Ramos

A psicóloga Anassis Moura Ramos comenta em seu blog Anissis sobre a necessidade que as pessoas tem em se expor.

“No entanto, verifica-se a necessidade que as pessoas têm de falar da sua terapia e de colocar o terapeuta fora do consultório. Não percebem que além de se exporem, de correrem o risco de as pessoas terem um entendimento errôneo sobre suas colocações, de poderem vir a fazer um julgamento errado sobre a sua pessoa, ainda expõe o profissional que lhe atende.”

A respeito dessa necessidade de exposição, foi realizada uma entrevista com dez estudantes do Instituto de Ciência Socias e Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), no campus Mariana. A pergunta base era: Por que você se expõe no Facebook? Duas respostas seguiram o padrão: “Me exponho porque não preciso me esforçar para agradar ninguém, me sinto protegido”. As outras são diversas se tratando do assunto, mas também falam de segurança, anonimato, ‘irresponsabilidade’. Outra pergunta foi: Essa exposição é necessária?

A maioria dos estudantes disse não. Porém, não se imaginam fora dessa rede social. De alguma forma, assumiram “precisar” falar com alguém, mesmo que com a tela do computador que separa. O perfil dos estudantes é diverso e não foi levado em consideração para a entrevista. O que é pautado é o interesse em dizer algo. Mostrar algo. Uma das entrevistadas é usuária assídua do Foursquare e diz gostar de dizer onde está, gosta das curtidas em suas fotos.

Pesquisas recentes sobre o Facebook apontam o botão “Curtir” como um medidor de popularidade. Mais que isso, indica o que agrada, o que não agrada. O problema é levar a sério a ponto de confiar totalmente no número de curtidas como um termômetro. É preciso entender que, pela rede, a relação de confiabilidade é tênue. As relações ao vivo tendem a ser mais verdadeiras, mesmo que pela observação gestual do discurso, do que é falado.

Foto: Nathália Viegas

Foto: Nathália Viegas

Para além dos problemas de segurança, como assaltos, sequestros e mortes, a psicóloga coloca a questão das interpretações em uma rede social em que os posts podem ser descuidados. Casos de famosos que acabam em saia justa por postarem ambiguidades ou opiniões fortes sobre assuntos polêmicos são muito comuns. Uma das atrizes mais conhecidas por recorrer ao Twitter e alfinetar outros famosos é Luana Piovani. Em uma de suas últimas declarações, fez referência a gravidez da modelo Carol Francischini. Ela não revela o nome do pai do filho, o que resultou em apostas de quem ele seria.

“Bom dia, putada!!! Acordei aqui com duas questões, vocês me ajudam por favor???? A primeira é uma crítica sobre o show da J.Lo que diz que tava tudo uma delícia, mas eu soube que foi playback e nem banda tinha no palco… A outra coisa é pra quem tá com dificuldade em engravidar: parece que é só usar camisinha e Nuvaring (contraceptivo em forma de anel vaginal) que dá direitinho”.

Esse é só um exemplo da corriqueira exposição de opiniões que são rechaçadas, adoradas e outros tantos adjetivos pelos fãs. É exemplo da fala da psicóloga Anassis Moura Ramos, sobre a exposição errônea, equivocada. Sendo celebridade ou não, todos precisam de certos cuidados para não acreditar que a rede que “protege” é a mesma que segura e separa o outro lado. Essa separação de espaço pode ser muito mais próxima quando há o embate entre posições, ofensas e agressões de qualquer tipo.

Fim da conversa no bate-papo.
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